PESCARIA

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Tomei os remédios que a técnica do plantão trouxe, furou meu dedo pra medir o HGT, índice de glicose. Está no padrão.

Brabo é que furam meus dedos das mãos – são dez – e pareço um paliteiro, todo furado, mas não tem outro jeito. Lembro quando espetava meus dedos colocando iscas em anzóis, tentando me familiarizar com o esporte que meus colegas adoravam: pescaria.
Pescaria e futebol foram duas coisas que bani de minha vida esportiva por pura incompetência.

Tentei, assim como tentei fazer aqueles serviços que todo o homem faz em casa: pega a furadeira e esburaca as paredes pra colocar prateleiras, lava o carro no domingo, assiste o futebol depois dorme até começar o Fantástico.

Mas cheguei a ir numa pescaria com meus amiguinhos, lá em São Borja. Conseguimos uma cabana dum amigo do pai do Capincho, arrumamos linhas, iscas, anzóis e um monte de tralhas pra pescaria, tudo emprestado. Ah, e dois garrafões de cachaça.

Fomos na picape Chevrolet vermelha do Saquinho, que era lastimável; a direção amarrada com arame e os freios funcionavam na base do acaso. Lá fomos nós, em alegre e saltitante bando, uns sete doidos amontoados na picape infernal.

Chegamos na cabana, na beira do Rio Uruguai, perto do anoitecer, e tínhamos que estacionar a camionete num barranco de frente pra parede lateral da cabana, pois a bosta não tinha arranque.

A casa era super organizadinha, camas, três peças, banheiro na rua. Os garrafões de canha foram abertos e lá pelas oito da noite todos já falavam russo.

Não tinha luz elétrica, só liquinho e velas. O Léo Castilhos fez um arroz com linguiça, comemos a gororoba e os caras acharam uma canoa num galpão e resolveram se lançar ao rio pra pescar.

Acho que eu era o mais sóbrio da horda de bárbaros, quando vi uns quatro dentro daquela casquinha que eles chamavam de canoa, me deu um calafrio, juro!

E sumiram na escuridão do rio aos gritos, como se fossem invadir a Noruega! Em seguida ouvi tiros vindos do mato.

O Saquinho achou duas armas de caça, de cartuchos, ele e o Rogério Krieger estavam no mato caçando. Naquele breu iriam se matar, os desgraçados! E caçar o quê?

Me enfiei na cabana e cochilei até acordar com a gritaria dos canoeiros, chegaram molhados como patos, a canoa emborcou com todos, quase morreram, perderam linhas, espinhéis, iscas artificiais, tudo emprestado. Mas Deus proteje os borrachos!

Eram umas 4 da manhã, entraram todos numa algazarra e vá canha!
O Capincho e o Saquinho estavam alucinados com as armas nas mãos, tanto que deram uns três tiros pro alto. Dentro da cabana.

Abriu cada buraco no teto de se prestar a atenção! Pra encurtar o relato, pela manhã todos em pé, com cara de cataplasma fazendo o levantamento da esculhambação.

Os buracos no teto não tinham conserto, as armas dava pra limpar, a canoa guardamos, então vamos embora.

Aí vem a parte de empurrar a camionete no barranco pra dar arranque.
Empurramos, a camionete desceu e pegou no tranco e se foi em direção à cabana do homem. Os freios nem tchuns. Pronto, derrubamos metade da parede da cabana! Azar, vambora!

Chegamos em São Borja e somente dois dias depois começamos a dar explicações pra quem tinha nos emprestado alguma tralha! A cabana do cara tivemos que pagar o conserto e a minha tímida carreira de pescador terminou ali.

Prefiro pescaria de quermesse.
Tiamanhã.