NÃO VÁ EMBORA (SETEMBRO AMARELO – Mês da Prevenção do Suicídio)

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Por que não derrubamos os tabus que envolvem o suicídio? Por que é que setembro se tornou amarelo só em 2015? Depois de tanto tempo, depois de tantas ‘’autopartidas’’ precoces, depois de tantas perdas é que foi preciso criar um mês só pra falar sobre isso, quando na realidade já deveria ser debatido e prevenido desde sempre! E por que a mídia omite o número gigantesco das vítimas e nem fala sobre? Tenho certeza que muitos, assim como eu, nem sabiam que 32 brasileiros morrem POR DIA vítimas de suicídio, e que 17% desses concidadãos, em algum momento, já pensaram em dar fim à própria vida (dados vindos de um estudo feito pela Unicamp).

A cor amarela, escolhida para simbolizar o mês escolhido, veio de um caso de suicídio ocorrido nos Estados Unidos em que um jovem americano tirou a própria vida dirigindo um carro amarelo. Ao longo do funeral, os amigos e familiares distribuíram cartões com fitas amarelas, fato que culminou com a propagação da mensagem, se espalhando mundo afora.

Só quem perde alguém desta forma sabe o quanto dói e o quanto é imenso o sentimento de impotência e culpa que acompanham por uma vida inteira aqueles que ficam. Acredito que essa é a pior forma de perder alguém, embora qualquer perda seja angustiante e dolorida.

A gente vive numa vida louca, sempre correndo contra o tempo pra conseguir fazer tudo o que tem pra fazer durante um dia que tem só 24 horas, e acabamos por deixar muita coisa passar despercebida nesse ‘’time’’, que no final das contas, é perdido. Em meio a esse frenesim, a gente perde, literalmente, o passar da vida. A gente perde de ver o pôr do sol, mesmo que seja pela fresta da janela do escritório, esquece de olhar pro céu quando a noite está repleta de estrelas, não vê a flor que desabrochou e nem escuta o passarinho que cantou. É tanta coisa que se perde, e é numa dessas, que 32 famílias por dia perdem seus entes, vítimas de suicídio. Nenhum caso é igual, porque somos apenas uma pessoa, e cada pessoa tem seus sentimentos que são só seus, a única convergência é o triste fim e a vontade de não mais permanecer aqui.

Claro que em meio a essas 32 famílias, que diariamente perdem alguém, inúmeras tentativas são feitas a fim de prevenir e não deixar que quem quer ir embora vá, mas quero chegar na parte do déficit de empatia que muitas vezes, muitos de nós temos. Uns até têm por vontade própria, outros por pura falta de tempo ou até por egoísmo mesmo. Se há algo que falta nessa vida louca, tecnológica, virtual, real, onde tudo é mais rápido, fácil e prático é empatia. É a falta de atenção com o outro. É a falta de abraço, afeto, atenção.

Falta o:

– Oi, tá tudo bem contigo?

– Oi, tu tá bem? Precisa de algo?

– Quer conversar?

Hoje em dia tem tudo, mas ao mesmo tempo não tem nada. A dor do outro não é mais importante do que os seus compromissos e na maioria dos casos é tratada com desdém, com desprezo e até ignorada. É drama, é pra chamar atenção, é frescura, falta de fé. Quando na realidade não é, é um pedido de socorro, é um – por favor, me ajude!

Precisamos ter ciência de que todos somos diferentes, e assim sendo, cada um de nós sente as coisas diferentes. Não é porque ‘’’o fulano já passou por tanta coisa, e tá aí ó, firme e forte’’, que o cicrano vai passar por tanta coisa também e vai conseguir ter a mesma força e ânimo pra enfrentar e passar pelas semelhantes dificuldades e sair ileso tal como o fulano. Nem todo mundo tem calo no mesmo dedo e nem todo mundo tem a mesma resiliência que o outro tem. Cada um é e sente as coisas de um jeito diferente.

A cada 45 minutos um brasileiro tira a própria vida e isso já deveria ser motivo para que a gente desmistificasse esse tabu e falasse mais sobre. Já deveria ser hora de todos se mobilizarem para que esse número astronômico de mortes precoces fosse diminuído. Já é hora de deixar de lado o preconceito e a vergonha, que são adversários nessa luta, e partir para o diálogo.

Se eu pudesse dizer qualquer coisa, ou pedir, pediria que tu jamais te sentisse só, que em hipótese alguma te sinta derrotado, aconteça o que acontecer, mas que JAMAIS pense que não há uma saída. A luz no fim do túnel existe, e só depende de nós caminhar e ir ao encontro dela. Se não conseguir ir sozinho, não tenha vergonha, peça ajuda, e independente de religião, nós temos um Deus, que, embora não o enxerguemos, ele está lá, de olhos voltados para nós.

Todos temos calos, sempre tem um sapato que aperta mais, assim como teto de vidro, TODO MUNDO TEM. Ninguém escapa do peso da cruz que tem que carregar, todos temos uma, e eu sei, às vezes fica um pouco pesada, difícil de andar com ela nas costas, mas logo nossa força é retomada e a lombar a gente já nem sente mais, e assim vamos indo, adelante siempre como dizem os ‘’correntinos’’.

Não desiste de ti, mesmo que o caminho seja difícil e sombrio, mesmo que o teu grito às vezes não seja ouvido, mesmo que o sol demore a brilhar, mas por favor, não desiste de ti. Não desiste de ser quem tu é por nada e nem ninguém neste mundo. Que nenhuma friagem jamais esfrie o teu calor mais bonito. E quando o sentimento de desistência vier, não te esquece que vai passar, vai passar! Tudo passa, o relógio não pára. Apesar dos pesares, te esforça ao máximo para ter valentia, ânimo, força e coragem de seguir, e nunca abra mão de ser feliz. Nunca deixe de pedir ajuda. Sei que estamos num mundo raso, egoísta e hostil, mas ainda assim existem pessoas boas e do bem, prestes a te estender a mão.

Há duas músicas que, pra mim, são as mais lindas que já ouvi. Uma é Stop Crying Your Heart Out, do Oasis, e a outra é Carta de Amor, da Maria Bethânia. Quando te sentires triste, dá um play na primeira, e lê a tradução da letra. Já a segunda, simplesmente escuta, e absorve cada palavra e cada refrão.

E como diria a Beth Carvalho: um homem de moral não fica no chão, reconhece a queda e não desanima. Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima.

Por favor, não vai embora e não esquece, falar é a melhor solução. Não desiste, fica aqui com a gente.

Se precisar, liga para o número 188, que serve de apoio emocional nesses casos. A ligação é gratuita e pode ser feita de qualquer telefone. Ou acesse, https://www.cvv.org.br/