EVOLUIR DÓI, SIM

167

Não sei se ocorreu com vocês, mas eu tenho a nítida sensação de que parei no finalzinho de fevereiro, início de março, tipo, no carnaval por ali sabe? Lembro como se fosse hoje eu voltando de São Borja pós-carnaval e me preparado mentalmente pra: ufa, até que enfim, vamos iniciar 2020.

Pandemia, máscara full time, álcool gel, deixar os calçados na porta, alguns kg a mais, isolamento, saudade, pessoas, amigos… “pê quê pê”, não deu tempo nem de se preparar.

Pandemia, duvido que muitos, assim como eu, meio que riram, mas de nervoso, quando caiu a ficha de que, sim, o negócio sempre foi sério desde o início. Não que eu não tenha levado com seriedade desde o princípio isso tudo, mas digo no sentido do baque quando caiu a ficha do real pesadelo, e o presságio dos longos meses vazios que ainda estavam por vir.

E quem um dia imaginou que teria que submeter a um exame chamado de PCR, que onde um canudo é enfiado até o cérebro pra detectar detectar esse maldito corona vayrus, meu Deus, é a treva. Graças aos meus, o primeiro e único teste que precisei fazer deu negativo. Mas a sensação de que escapei do vírus não acaba nunca, porque vira meio que um toque pois daí é a maçaneta da porta que tu pegou, e lembra que esqueceu de passar álcool gel, é alguém que tosse numa fila, é o ifood que chegou e tu pega a embalagem e por aí vai crescendo a bola de neve mental acerca desse vírus infame. E pra piorar, já estamos em novembro! Bom, eu já avisei todo mundo não vou trocar de idade neste ano, vou comemorar sim, brindar a saúde etc e tal, mas vou permanecer nos 3.2

Brincadeiras a parte, foi um ano nulo pra muitas pessoas no profissional, financeiro, pessoal. E infelizmente também foi o último ano pra milhares de pessoas. Foi a partida de muitas pessoas que faziam parte da vida de muitas outras pessoas. Essa, sem dúvida, é a pior parte de todo esse trem dos horrores, lento e demorado que não encontra nunca a luz no fim do túnel, diga-se vacina. Enfim.

Sem muito mais o que falar sobre 2020, acho que o silêncio diz muito sobre ele. Digo baseado na minha experiência e vida, um pobre solteiro, que mora sozinho numa cidade grande e ainda longe da família.

No início até pensei que seria fácil, tendo como referência os 14 anos já vividos longe de casa e dos 14 anos de saudade, que não foram nem um pouco fácil. No entanto, a diferença era que antes, quando a saudade apertava muito, dava pra dar um pulinho ali (no caso, LÁ) pra ver todo mundo. Coisa que atualmente não dá mais, e confesso que não tenho coragem, ainda, de viajar horas dentro de um ônibus. Acho que vale a pena esperar um pouco mais. Enquanto isso, gratidão FaceTime.

Já consigo definir e fazer a leitura do que foi esse ano pra mim. Foi meio Comer, Rezar e Amar, exceto a parte do amar, porque no filme o amar tá num outro contexto.

Foi um ano de descobertas eu diria, um ano onde várias coisas desabrocharam. Coisas que estavam ali, inertes, à semelhança de uma semente que não vinga, ou de uma árvore que não cresce.

Uma dessas “coisas” que nasceu, tipo um parto normal com poucos segundos de sofrimento e sem longas contrações, foi a minha espiritualidade, juntamente, óbvio, com vários outros rebentos. Mas fica pra uma próxima conversa o relato desse repentino nascimento.

E vindo agora ao encontro do título, quando a gente se percebe com a cerca do nosso quintal um pouco mais expandida, a nossa percepção das coisas muda também, a gente consegue detectar o que parou no tempo, e a mim, confesso, incomoda bastante.

A gente constata isso analisando a si mesmo, analisando o nosso contexto atual, mas com os olhos voltados lá pros anos anteriores. Pelo menos eu assim o faço. Analiso eu mesmo e toda a minha trajetória, bem como ela foi e qual a influência que teve até agora, positiva e negativamente. Fazendo essa pesquisa na linha do tempo, consigo ver como foram doloridas algumas situações em alguns momentos da vida, e que apesar de doloridas e sofridas, ainda ainda tô aqui.

Falando da minha caminhada nessa jornada chamada vida, posso dizer que, olha, doeu pra caralh* chegar nesse sofá onde me encontro agora digitando esse texto. Mas foi essa doida caminhada, que me fez juntar todos os pedaços de mim mesmo pra eu ser quem hoje sou.

Não vou dizer que sou a melhor pessoa do mundo, porque se fosse não estaria aqui, mas a gente tem que ter orgulho de si sim, e da nossa própria biografia. A gente tem que aprender que tudo o que nos machucou, e também o que nos alegrou, já passou.

O que nos fez bem agregamos à nossa alma, sem colocar na peneira, o que nos feriu, a gente aceita a cicatriz, ressignifica ela e deixamos ali como um troféu.

O tempo não volta, ele só corre, ele passa, ele voa.

O nosso tempo aqui é muito curto pra não aproveitarmos o agora plenamente, é muito pouco tempo que temos pra permitir que interferências do que já passou, e que não volta mais, atrapalhe o nosso presente.

Fácil não é, mas impossível também não – ver e aceitar as nossas cicatrizes.

É libertador quando aceitamos que elas vão pra sempre permanecer ali (sem a opção de ameniza-las com laser) porém essa aceitação é o nosso passaporte pra vivermos em paz.

NÓS é quem somos os comandantes da nossa própria nave, nada e ninguém mais.

A evolução não vem do além, ela vem dos tombos que a gente leva, ela nasce da força que a gente faz pra levantar. Ela vem da nossa vontade de não querer sofrer mais pelas coisas que só a gente sabe que nos causam dor.

A evolução é a soma de todos os nossos cacos espalhados pelo chão logo após a nossa queda, que foram juntados e colados com algo que é peculiar de cada um, mas que possui o mesmo nome: força interior e fé.

Todos temos, nascemos dela. A diferença é que uns ainda não precisaram usá-las (embora ache impossível alguém passar ileso por aqui sem ter que fazer o uso

da força ou da fé) ou não foram determinados o suficiente pra perceber, enxergar e senti-las. Ou também porque não querem, livre arbítrio né?

Acreditem: ela tá ali, ninguém é fraco, e não estamos sozinhos aqui.

Mas sim, crescer e evoluir dói.