Um Belo dia para Morrer

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Hoje é um dia perfeito para morrer, pois o céu está nublado, as tórridas ondas do verão já passaram e os gélidos dias de inverno felizmente ainda não chegaram, as ruas estão úmidas, os pássaros estão recolhidos, os cachorros observam os transeuntes, os gatos se estendem ao chão ignorando o mundo, os ladrões estão no seu horário descanso, os políticos estão nos cafés confabulando suas mentiras planejadas e a vida está moribunda.

Mas o melhor de tudo é que ainda é dia, pois não há nada mais chato, desagradável e desconfortável do que morrer à noite, pois tão indecoroso ato tira as pessoas de seus profundos sonos, de seus necessários descansos ou de seus fantasiosos devaneios, em outras palavras, toda a morte noturna deveria ser lucidamente postergada, pelo menos o seu anúncio, até ao amanhecer para não incomodar aqueles que angelicamente dormem.

Mas voltando ao dia ideal, àquele cujos atributos brindam ares de esoterismo divino ao momento e transformam a situação nalgo belo e corriqueiro, creio piamente ser hoje este mágico instante e, além disso, também creio que toda a morte é perfeita, pois ela sempre acontece no lugar exato e cercada por naturalmente azaradas pessoas, mesmo assim, o momento mais apropriado é exatamente hoje que, por suas espontâneas e cadavéricas características, poderia ser definido como o Dia Mundial da Morte, o qual é exato, poético e natural, apesar de ser desagradável, cansativo e doloroso para aqueles infortunados cuja morte pessoal não acontece agora e, como consequência, terão que esperar por mais um ano, por mais 365 esperançosos dias para sentir aquela sensação corpórea onde a temperatura interna é mais fria do que a externa, onde o apagar do fogo interno deixa somente espaço para cinzas do que um dia foi, e que já não mais é, mas que de alguma maneira continuará sendo, ainda que fantasiado e distorcido, na memória de algumas pessoas que, confiantemente, esperam também morrer num dia qualquer que seja perfeito, mesmo que não seja neste novo Dia Internacional da Morte.

Neste dia perfeito, neste instante exato, onde acontece o reencontro derradeiro com aquela que nos acompanha desde o primeiro dia e que está conosco em cada segundo e por todos os lugares onde quer que peregrinemos, sonhemos ou nos aventuremos e que, agora, definiu o seu dia predileto para o enlace final que, por excelência sobrenatural, é amorosa e celestialmente mortal.