O Moço, A Jovem, O Livro e o Amor

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Ele estava curioso, tinha perguntas cujas respostas eram insuficientes, ou questionáveis, ou vazias e, naquele momento, eram tão intensas que pareciam ser a única certeza de sua existência, a certeza da incerteza sobre alguns aspectos da vida, como se tudo necessitasse uma explicação, ou um significado, ou uma revelação.

Seu comportamento estava quase obsessivo, pois lia de várias fontes, escutava de distintos oráculos, assistia à diferentes abordagens e, ultimamente, questionava, ou melhor incomodava, qualquer pessoa que passasse perto do seu raio de comunicação.

Então, impelido pelas sedutoras premissas da sociedade, sentiu aquele desejo incontrolável de fazer o que deve ser feito quando a dúvida, o receio ou a incerteza batem à porta pessoal, foi fazer compras, foi preencher o vazio interno com paliativos materiais que, apesar de não preencherem, possuem o indelével poder de seduzir, de satisfazer e de acalmar, mesmo que por um período absurdamente breve, em outras palavras, uma ejaculação precoce comercial que também vem com a ressaca de dívidas adquiridas.

E assim, naquele inebriante espaço de cores, sons, vitrines e pessoas treinados para despertarem seus mais íntimos desejos e abrirem vorazmente sua carteira, ele encontrou um banco e sentou-se para desfrutar ainda mais daquela sedutora paisagem.

De repente, olhou para o lado e viu uma jovem lendo um livro cuja capa era preta, mas que não continha nenhum escrito nela e isto lhe chamou muito a atenção, pois o extraordinário tem o poder de abrir as portas da curiosidade humana.

Assim, sem deixar o olho piscar, olhou para a jovem e perguntou

– O que você está lendo?

– Um livro, respondeu ela, doce e diretamente.

Para ele que já estava num estado eufórico, quase alterado de consciência, aquele inesperada resposta teve um ar de ultraje e de arrogância, ao que ele quase reagiu raivosamente. No entanto, felizmente, ele pode parcialmente conter sua ira e falou, em tom irônico:

– Sério, quase que não percebi, mas que tipo de livro é este?

– Um livro de respostas. Respondeu a jovem com o mesmo tom anterior.

– Um livro de respostas?. Que tipo de respostas?.

– Respostas sobre as dúvidas que as pessoas possuem com relação à vida, contestou a jovem.

Naquele instante, o desejo de compras que até então tinha tomado conta do seu ser desapareceu e, no seu lugar, uma essência atrevida e bisbilhoteira adornou seus pensamentos e ele questionou a jovem

– E o que este livro fala sobre o amor?

– Ele diz que o amor é natural, é edificante e deve ser plenamente manifestado.

– Mas isso todo mundo fala, retorquiu severamente o inquisidor.

– É verdade, respondeu a jovem, com sua costumeira tranquilidade

Então, a ansiedade começou a correr pelas veias do moço pois a insatisfação quando adentra a alma humana, se espalha por todas as esferas de sua vida. Mesmo assim, ele indagou novamente

– E este livro fala mais alguma coisa sobre o amor, ou somente possui estas pérolas que você mencionou?.

A jovem notou o sarcasmo da pergunta, mas sem se alterar continuou.

– Ele fala também que o amor é para ser compartilhado abundantemente, pois aquele que doa amor é como uma fonte que transborda os néctares que possui no âmago de sua natureza, enquanto que aquele que se priva de tão exuberante força é o mais mesquinho e miserável ser, e é tão pequeno que não consegue ver a grandeza de sua existência.

Além disso, ao contrário do que a maioria das pessoas acredita, o livro fala que a reciprocidade do amor não precisa ser satisfeita para que o doador sinta-se pleno e correspondido, pois o vetor do amor busca o alvo ao qual foi enviado, mas se ele não encontra um hospedeiro receptivo, ele retorna naturalmente ao seu emissor visto que ele não quer ser desperdiçado.

Em outras palavras, continuou a jovem, quando uma pessoa ama alguém e não é correspondida, ela se sente triste, rejeitada e solitária, o que é uma desvirtuada realidade, pois ela não consegue reconhecer-se como uma fonte de amor e, que além disso, ela não sabe que o amor que a outra pessoa não aceitou, por qualquer razão que seja, volta para ela com a mesma intensidade, magia e opulência, pois ele jamais é desperdiçado.

– Como assim, interrompeu o jovem, você quer dizer que se amo alguém e esta pessoa não me ama, o amor permanece em meu coração e não é jogado fora.

– Exatamente, respondeu a jovem, o problema é que as pessoas ainda não entendem isso, visto que a inerência do amor-próprio não lhes é sólida, nem consciente. Mas a partir do momento em que elas entenderem que a propriedade do amor é intrínseca às suas naturezas, elas adquirirão a maior das fortunas que uma pessoa pode ter em vida, que é a capacidade de amar, tanto a si mesmas, quanto às outras pessoas, cientes de que o amor jamais é desperdiçado por aquele que ama.

Ao terminar, a jovem olhou para o lado e viu o moço com um olhar distante, uma respiração profunda e completamente relaxado no banco, pois seus pensamentos e sua essência já não mais estavam extasiados com produtos e lojas, mas sim estavam peregrinando pelos aromas encantadores dos ensinamentos contidos naquele livro de capa preta, desnudo de palavras.

Então, com a tranquilidade que lhe era natural, a jovem levantou-se e partiu.

Algum tempo mais tarde, o jovem voltou de seus cativantes devaneios, olhou para o lado e, sentiu-se um pouco triste ao notar que a jovem tinha ido embora, mas também ficou perplexo ao ver que ela tinha lhe deixado aquele instigante oráculo preto em seu colo e, naquele instante, ele sentiu-se pleno, pois entendeu a simbologia do momento onde naturalmente, ele havia recebido o amor de outra pessoa.