Meu olhar por uma fresta

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Tem um canto da minha sala, que adoro me acomodar e contemplar o balançar das árvores, prenunciando a despedida de uma estação. Ao meu lado uma escultura de arte serve de lamparina para me manter aceso e, como se fosse o sol, iluminando e serenando minha evidente bipolaridade, mais a figura de Tara – uma deusa budista para manter minha fé ardorosa de que tudo é possível e de que entre milhões que se manterão incautos à dor, outros surgirão renovados no amor e nos princípios da solidariedade, revendo seu egoísmo e materialismo e apostando numa postura espirituosa significativamente, tirando do sofrimento coletivo lições capazes de compor um novo ser com alma leve.

Me dou conta que estou retomando o hábito de tecer estas pequenas croniquetas como forma de preencher as horas e exercitar meus sentimentos tentando extrair o melhor de mim.

À minha volta, livros e mais livros para bisbilhotar a hora que me der vontade, pois tem que ser assim: sou inquieto para ficar muito tempo lendo. Repasso, A Arte de Ser Infeliz, Mereça Ser Feliz, Da Tranquilidade da Alma, e me fixo no Colo, Por Favor: do Carpinejar.

Aliás, quem neste tempo de Pandemia não quer um colo, um afeto, um amor? É com as palavras dele que encerro esta crônica: “os Silêncios ocuparão mais espaços. Estamos cientes do quanto a intimidade é frágil, do quanto a vida escapa, do quanto quebramos, por uma gripe, do quanto magoamos quem deveríamos zelar, do quanto não há controle sobre o que sentimos, muito menos sobre o que o outro sente por nós.