DIA DO PALEAÇO

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Dia do Palhaço, dez de dezembro, quase esqueço.
Estávamos no happy hour há pouco e me lembraram disso por motivos óbvios: eu sou um palhaço.

Sabem happy hour de aposentado? Começa ao meio-dia e termina dez da noite com os que sobreviverem. Tem gente que pronuncia happy hauer; deve ser o Rutger Hauer feliz, não é?
Odeio ser levado a sério e nem levado por ninguém a lugar nenhum, embora, na prática, eu seja que nem cachorro, sempre pronto pra sair.

Que nem caixa de isopor: me enchem de cerveja e levam pra qualquer lugar.

Mas sou um palhaço e isso está no meu DNA, na minha carga genética e me parece imutável. Tentei ser um cidadão circunspecto, austero, sóbrio, confiável mas na primeira reunião de condomínio tenho um ataque de riso quando a nova inquilina se apresenta como Dona Bocélia esposa do Seu Corálio. E vou pro banheiro e não paro de rir. Ninguém confiaria em mim pra síndico, por exemplo.Ufa!

Dona Bocélia e Seu Corálio me odeiam.

Mas, enfim, ainda não recebi nenhum cumprimento no Dia do Palhaço, apenas uma mensagem do Carequinha psicografada pelo Bozo.

Tá faltando risada e palhaçada sadia nas nossas vidas. Palhaços macabros temos aos montes nos fazendo de palhaços bobos contribuintes, não é? Certo, nem vamos falar nisso.
Lamento, acho que não mudarei.

Meu filho, o Lobo, talvez seja um dos poucos que me entende, que interprete legal essa minha porralouquice, talvez.

Sou um inconsequente irresponsável varrendo morcegos até jogá-los no mar, pintando de azul, de azul e de verde-mar desbotadas tabuletas, vassouras de feiticeiras, velhos letreiros do bar. Obrigado, Quintana.