ADEUS FERNANDA YOUNG

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Fernanda Young, 2018 (Foto: Divulgação/ Bob Wolfenson)

O que não me é habitual, ficar muito tempo longe do celular e das redes sociais, neste último domingo, 26/08/2019, foi. Acordei lá pelas 10h, vesti o velho chambre de todos os invernos, calcei as pantufas e me fui fazer o ritual da manhã. Escovar os dentes, lavar o rosto, passar protetor solar, enfim, essas coisas que já estão no nosso modo automático. Feito isso, fiz meu café batido com leite, peguei algumas bolachas e logo mergulhei no mundo jurídico a fim de colocar em dia tudo o que não consegui ao longo da semana. Quando vi, já havia passado das 14 horas, dei um ‘’time’’ pro almoço, e logo voltei. Meu corpo, horas depois, deu o sinal de que já era a hora do chimarrão. Voltei meus olhos para o celular (que estava com todas as notificações desativadas) só pra conferir a hora e, puts, 19 horas. Resolvi parar tudo, migrar da cadeira da mesa para o sofá, já com o chimarrão em mãos, e, ‘’voltar pra vida’’, virtual, no caso. Foi quando abri o Instagram pra conferir algumas coisas e logo no feed, comecei a ver várias fotos da Fernanda Young, e logo pensei: OLHAAA ELAAA, ela voltou! Imaginei que fosse algum novo trabalho, alguma novidade na carreira, enfim, imaginei tudo, menos que tivesse sido a sua morte.

Quem me conhece sabe que sou e sempre serei um eterno admirador e defensor das mulheres, que torço pelas conquistas delas e que sou orgulhoso de tudo o que conseguiram até hoje, embora saibamos que essa disparidade entre os gêneros, infelizmente, ainda existe. E é nesse contexto, de admirar as mulheres, que entra o apreço que sempre tive pela Fernanda Young. Primeiro porque sempre achei ela uma mulher totalmente à frente do tempo de muitas mulheres, sempre foi ela, nua e crua, ‘’persona peculiar’’, diferente, inteligente (me fascinam as pessoas que têm a sua cerca sempre expandida, ilimitadas e não convencionais). Fato que me fez gostar dela, já desde outros carnavais. Claro, também por ter sido roteirista do que julgo o melhor seriado de todos tempos, e que volta e meia assisto, Os Normais. Que atire a primeira pedra quem não esperava ansiosamente o dia para ver. Também por ter feito parte da melhor fase do Saia Justa, no GNT, quando era ela, a Rita Lee, a Monica Waldvogel e a Marisa Orth, que baita time.

Fernanda horava o sobrenome que tinha, Young, que significa jovem na nossa língua. Integralmente ácida, divertida, debochada, fascinante, independente e que não tinha contas a prestar a ninguém. Se despediu de nós há três dias, num post no Instagram, com um texto que mal sabia ela que seria o de sua despedida. Esse texto, pra mim, sintetiza toda a sua essência e quem era: Fernando Young.

‘’Estou longe de encerrar a minha jornada nessa orbe.’’

E jamais encerrará, fica o que tu foi, e isso é infindável. Vai com Deus!

Na íntegra o texto publicado:

‘’As pessoas me acham maluca, mas estou observando tudo – de dentro e de fora. Pensam que não percebo as suas falcatruas, mas ser gentil não significa ser otária! Trabalho feito uma vaca, pago essas merdas desses impostos, não vejo uso para eles, escuto que mamo em tetas do governo; divirto as pessoas, ofereço poesia, e lido com ignorâncias proferidas por um bando de escroto que mete Deus nos seus discursos hipócritas. Deito e levanto cansada porque nunca peguei um centavo de ninguém e tudo o que tenho é fruto de TRABALHO. Não herdei, não ganhei, nem sou sustentada! Tenho 4 filhos que estão aprendendo a serem éticos e livres. E o que ouço? É louca! O que vejo? A nossa cultura material e imaterial, a nossa língua, a nossa fauna, flora, sendo esganiçada, sacaneada, por ogros maléficos. Estamos virando uma gente porcaria, afinal “piorar é mais fácil”! E fica tão claro o oportunismo das ratazanas sorrateiras, que veem na “loucura do criador”, achando-nos dispersos, irresponsáveis, ricos, nesgas para sermos passados para trás! Comigo, não! Não! Sei reconhecer um lápis meu em meio a um milhão! Não estive “calada nos últimos 14 anos”, não aceito desaforo! Sou uma mulher de 50 anos que sonhou alto e realizou muito. E estou longe de encerrar a minha jornada nessa orbe! Aos que se interessam: bom proveito. Para os outros: estou pouco me lixando!’’