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Parte 5 – De sagitariano a estagiário: Um mergulho no mundo Real por Lawrence Almeida

No último capítulo, paramos quando finalizei o curso de comissário de voo. E como a vida é feita de voltas — e eu sendo um sagitariano raiz, onde tudo é intenso e em constante movimento — logo me vi trilhando novos caminhos.

A experiência na aviação foi maravilhosa, sem dúvida, tudo na vida é válido. Aprendi demais, vivi situações que me moldaram. Mas, meses depois do curso e de muitas tentativas frustradas de entrar na área, percebi que talvez esse caminho não fosse pra mim. A vida, mais uma vez, me dava aquele empurrãozinho discreto, mas certeiro.

Foi aí que decidi prestar vestibular para Direito na PUC. Passei. E posso afirmar, sem sombra de dúvida, que essa foi uma das fases mais punk da minha vida. Punk mesmo. Eu ia todos os dias de ônibus pra faculdade — e mesmo com todos os perrengues, eu amava estar na PUC, especialmente no prédio 11, onde as aulas de Direito aconteciam. O ambiente, os debates, os professores, os corredores… tudo me encantava. Sinto uma saudade boa dessa época. Nossa turma era gigante, cheia de histórias, sonhos e amigos que carrego até hoje.

Logo no primeiro semestre já consegui dois estágios: de manhã, na Prefeitura de Porto Alegre; e à tarde, num escritório de advocacia, num arranha-céu bem no centro da cidade. Foi aí que vivi o que significa, de verdade, trabalhar. E ali também tive meu primeiro contato com uma sede imensa de aprender e com uma força interior que até então eu desconhecia. Mas que, hoje, sei que é minha — vem de dentro, vem da alma.

O estágio da manhã era tranquilo. Eu atendia o público em uma secretaria, o que me deu noção de serviço, escuta, empatia. Mas o da tarde… era punk. Um escritório renomado, clientes importantes, ambiente elegante. Tinha que usar terno de segunda a quinta, sexta era o dia do jeans e blazer — e eu, que amo esse universo, me sentia no lugar certo. Apesar disso, comecei totalmente cru. No início, nem sabia identificar as partes de um processo físico. E olha que não estou exagerando. Não existia essa facilidade de hoje, de tirar o celular do bolso e pesquisar no Google. Eu aprendia perguntando, observando, anotando. Conversava com estagiários, advogados, assessores, quem quer que fosse. Mas sempre dava um jeito. Cumpria a missão.

Ali aprendi que o conhecimento se conquista correndo atrás, na marra, com humildade e vontade. O prazo final para protocolar petições era 18h. E precisava ser tudo cronometrado — do tempo de sair do escritório até chegar ao Fórum ou ao Tribunal.

Teve um dia marcante. Eu recebi duas pilhas enormes de processos e petições. Não consegui táxi. Aplicativo de transporte não existia ainda. Ônibus? Impossível. Eram pilhas gigantes em dois carrinhos, cada uma na altura da minha cintura. E eu fui. A pé. Do centro de Porto Alegre até o Tribunal de Justiça, depois Fórum, carregando aquilo tudo. Cheguei exausto, com os pés machucados por um sapato social que só era bonito — conforto, nenhum.

Depois daquele dia, entendi algo importante: é preciso se posicionar. A gente precisa saber dizer o que é justo, o que está fora da medida. Pedi uma conversa com meu superior. Fui ouvido com empatia e respeito. E ali também aprendi que nosso corpo fala, nosso limite importa — e que trabalhar com Direito também exige viver o que ele prega.

Fiquei quase dois anos nesse estágio. Aprendi a montar processos inteiros, entender cada etapa jurídica enquanto, na faculdade, ainda estávamos aprendendo normas da ABNT ou Filosofia do Direito. Confesso que essa disparidade me causava certo tédio nas aulas, mas eu entendia: cada coisa no seu tempo.

Ah, e claro — como esquecer do bar famoso atrás da PUC? Era o nosso point, o respiro depois da aula, o lugar onde a gente ria, bebia e trocava experiências que hoje fazem parte da minha memória afetiva.

Vou descobrir o nome do bar e volto com ele no próximo capítulo. Mas encerro essa parte dizendo que a vida, mais uma vez, me provou que o conhecimento nunca vem de graça. Ele é suado, vivido, conquistado. E mesmo quando a gente não entende o propósito de certas curvas no caminho, lá na frente tudo se encaixa.

Porque no fundo, toda superação começa com o movimento de buscar.
E quem busca, encontra.

Até logo.
Lawrence Almeida

Redação
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Revista Digital de todos os acontecimentos do círculo social e público da cidade de São Borja e Região.
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