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Parte 4 – Entre voos e escolhaspor Lawrence Almeida

No capítulo anterior, paramos na minha morada no centro histórico de Porto Alegre — um tempo cheio de encontros, amizades, vínculos e memórias que ainda moram em mim. Falei sobre as relações interpessoais, sobre o que é viver longe de casa, e também sobre o privilégio de ter cruzado caminhos com pessoas tão especiais por onde passei.

Dando continuidade à minha trajetória de forma cronológica: foi justamente na metade do curso de Design que me deparei com uma inquietação muito forte. Aquilo que eu esperava encontrar no mercado de trabalho para um designer formado não correspondia às minhas expectativas. Não me via como um designer de produto, nem como designer gráfico. Eu buscava algo diferente — algo que talvez nem soubesse nomear na época, mas sentia que não era por ali.

E como um bom sagitariano nato, não sou de ficar parado na dúvida. Quando sinto que não é por ali, simplesmente mudo de direção. Não digo isso como uma qualidade absoluta — porque sim, às vezes, essa impulsividade pode nos levar a enrascadas. Mas uma coisa eu posso afirmar com toda certeza: nunca me arrependi das escolhas que fiz. Nunca.
E não falo isso com orgulho cego, nem com vaidade — mas com a certeza de que cada decisão, mesmo as mais inusitadas, me moldaram até aqui. Me deram vivências, visão de mundo, repertório emocional. Me construíram.

Foi nesse contexto que decidi trancar o curso de Design e mergulhar numa nova experiência: fazer o curso de Comissário de Voo. Me matriculei na Aerosul, que na época era uma das mais renomadas escolas de aviação — e, naquele ano, a aviação comercial estava em alta. Tudo parecia conspirar para um novo começo.

Posso dizer, sem exagero, que foi uma experiência incrível. A turma era enorme, cheia de gente de todos os estilos, sonhos e sotaques. Fiz muitas amizades ali. O curso durou cerca de 6 meses, e a rotina era puxada. Tínhamos que ir uniformizados todos os dias: terno azul-marinho, gravata listrada em azul e amarelo, sapato preto e um bravê fixado — que dava aquele ar super profissional, confesso que eu achava o máximo.
As aulas começavam às 8h da manhã, com uma pausa de 1h30 para o almoço, e seguiam até as 17h30. Era uma jornada intensa — mas cheia de aprendizado.

Durante o curso, aprendemos de tudo: primeiros socorros, etiqueta, apresentação pessoal, dicção, atendimento ao cliente, normas de segurança, evacuação de emergência, psicologia do passageiro… tudo o que envolve a responsabilidade de estar a bordo, zelando por vidas.

Ao final do curso, passamos por uma série de exames e testes — entre eles, o Certificado Médico Aeronáutico (CMA). Esse exame é obrigatório para todos os profissionais da aviação e avalia as condições físicas e mentais do candidato. Ele é realizado por profissionais credenciados pela ANAC (Agência Nacional de Aviação Civil) e tem como principal objetivo garantir a segurança do voo.
Fui até a base de Canoas, onde passei um dia inteiro em exames físicos, testes, avaliações… e, ao final, recebi minha carteira de comissário apto a voar.

É curioso lembrar disso hoje. Porque embora eu nunca tenha seguido carreira na aviação, esse curso foi essencial para minha formação como pessoa. Me ensinou disciplina, autocontrole, oratória, segurança, apresentação, responsabilidade — lições que carrego até hoje, em tudo o que faço.

E, mais uma vez, volto àquela verdade que aprendi na prática:
tudo na vida é válido. Absolutamente tudo.
Nada é desperdiçado. Nenhuma curva é em vão. A gente só entende os porquês muito depois — às vezes, anos depois — mas entendo hoje que cada passo teve seu sentido. E que cada experiência tem o seu tempo certo de florescer dentro da gente.

Finalizo esse capítulo com uma frase que resume bem o que acredito:

“Nem toda escolha precisa levar a um destino final. Algumas só existem para ensinar a caminhar.”

Nos encontramos em breve, com mais uma parte dessa jornada que é feita de voos, curvas, pausas e muita história.

Até logo.
Lawrence Almeida

Redação
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Revista Digital de todos os acontecimentos do círculo social e público da cidade de São Borja e Região.
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