No capítulo anterior, compartilhei com vocês meus primeiros anos acadêmicos no Design, entre estudos, descobertas, projetos, festas e o efervescente Beco 203. Relembrei os momentos que realmente ficam: as histórias, os encontros, os risos, as músicas, os amigos, os aprendizados. E é por isso que sigo escrevendo — pra dar forma a tudo isso e, de quebra, te convidar a lembrar da tua própria caminhada também.
Dando continuidade à minha trajetória, hoje quero falar sobre a minha adaptação em Porto Alegre. Quando fui embora de São Borja, eu tinha 18 anos. Jovem, cheio de expectativas, mas também com o coração apertado. O início não foi fácil — longe disso. Demorei cerca de 4 anos pra, de fato, me sentir “em casa” naquela cidade tão intensa.
Curiosamente, a parte prática da vida adulta — lavar, cozinhar, limpar, me organizar — nunca foi um problema. Graças aos meus pais, essas tarefas já faziam parte da minha rotina desde pequeno. O mais difícil mesmo era lidar com a saudade. Sempre fui muito ligado à minha cidade, à minha família, às pessoas daqui. São Borja sempre foi meu porto.
A grande diferença que senti, e que mais me impactou, foi a forma como as relações interpessoais se davam em Porto Alegre. Havia uma distância, um certo frio nos modos — e isso me doía, porque sou feito de afeto. De toque, de conversa, de olho no olho. Na capital, percebi que isso era mais raro.
Naquela época, eu voltava para São Borja em todo e qualquer feriado. E juro, eu nem sabia o que era cansaço. Chegava aqui numa sexta, e no domingo à noite já estava de volta à rodoviária rumo a Porto Alegre. Uma rotina que, inclusive, já foi pauta em terapia. Sempre que o ônibus se aproximava do trevo de entrada da cidade, um nó se formava na minha garganta, e eu chorava alguns minutos. Era algo inevitável. Nunca consegui conter. Não era tristeza, era emoção — pura, sincera, quase inexplicável.
Depois do choro, colocava meus fones, ouvia alguma música e dormia. Chegava em Porto Alegre, e logo era engolido pelo barulho, pelos compromissos, pela energia vibrante da metrópole. E aquele momento de choro virava só mais uma lembrança íntima guardada no peito.
Vivi 16 anos em Porto Alegre — e confesso: isso nunca mudou. Sempre que deixava São Borja, o choro me acompanhava. Isso só reforça o quanto esse lugar me habita, mesmo quando estou longe.
Com o passar dos anos, fui me ambientando. Transitei por muitos espaços, conheci pessoas maravilhosas, fiz amizades verdadeiras. Sempre morei na região central, pela qual tenho um carinho enorme. Vivi na Rua dos Andradas, bem em frente à Casa de Cultura Mario Quintana. Depois, fui pra General Auto, uma transversal da Demétrio Ribeiro e da Fernando Machado, pertinho da famosa casa que foi palco do crime da Rua do Arvoredo — sim, sempre achei isso curioso (e um pouco macabro, confesso), mas eu adorava morar ali.
Foi nesse cenário que conheci uma das minhas grandes amigas da vida: Luma. Uma cabeleireira talentosíssima, que cortava meu cabelo (quando eu ainda tinha, risos) e acompanhou de perto a minha transição até assumir a calvície. E mais que isso: foi quem sempre dizia que eu seria bonito de qualquer forma. Isso já diz muito sobre a generosidade e sensibilidade dela.
Eu ia no salão da Luma quase todos os dias. Ela fazia de tudo: barba, limpeza de pele, rapava minha cabeça. Conversávamos, ríamos, compartilhávamos a vida. Toda sexta-feira, ela fechava o salão, e ficávamos ali mesmo, bebendo cerveja, jogando conversa fora — criando memórias que até hoje me aquecem o coração.
Foi lá também que conheci a Nilza, outra querida, amiga da Luma e, por coincidência, também amiga do meu pai aqui em São Borja. A vida tem dessas surpresas bonitas. Sempre me encantou encontrar são-borjenses em Porto Alegre — era como sentir um pedacinho de casa por perto.
Sou profundamente grato por ter feito amigos em cada lugar por onde passei. Amizades que não foram apenas companhia, mas âncoras. Laços de verdade. Porque, no fim das contas, é sobre isso: sobre deixarmos algo de bom nos outros — e levarmos um pouco deles com a gente também. Fazer amizades é, pra mim, uma das formas mais bonitas de eternidade.
Volto em breve com mais um capítulo dessa minha jornada, que segue sendo escrita com memórias, afeto e muita gratidão.
Até logo.
Lawrence Almeida
