Comecei a querer entender o mundo quando ainda nem comia na mesa dos adultos, intrigada com mistérios como o vento de chuva que vinha como um grande animal resfolegante sobre as árvores do jardim. Eu sempre quis compreender: porque não entendo, escrevo. Como jamais entenderei, até o final, até o fim da vida tentarei expressar em palavras, linhas e entrelinhas, essa inquietação.
Bruxas existem, fadas existem, a vida depois da aparente morte existe, os encontros humanos são destinados: algo secreto maneja os laços que se atam e desatam em ódios e amores, família, amizades, até encontros breves.
Nada é impossível no processo no qual estamos incluídos, como as árvores na floresta e as conchas na areia: transformação, não deterioração; soma, não redução; milagre; cotidiano, não crueldade.
Se conseguíssemos enxergar, seríamos mais abertos e ousados. Daríamos mais importância ao crescimento, não à castração; ao respeito, não à vingança; à busca de felicidade ou harmonia, não à caça de poder e dinheiro. Teríamos consciência de que a vida nos lançou fora do casulo do não saber para exercermos generosidade e liberdade, até sermos de novo encerrados nisso que chamamos de morte.
Coisas de Lya Luft
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