Na multidão enxergo rostos

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Agradecido observo, e ao observar enxergo, na multidão enxergo rostos
Alguns tão exuberantes que seu brilho quase cega
Outros semidefuntos, permeados por um soturno desgosto
Alguns ávidos como a inocência que livre se despega
Outros retesados como um sentinela em seu posto
Alguns carregam dúvidas, feições que a si mesmos desoneram
Outros expressam maturidade, são centrados e firmemente predispostos
Alguns são imaginações que revelam uma fantasiosa quimera
Outros escondem algum segredo, seus traços são receosos e indispostos
Alguns caminham solitários, parecem uma distante e intocável tapera
Outros irradiam o amor, luzes de um ser integrado, leve e composto
Alguns parecem procurar o passado, vivem noutra era
Outros são excessivos, seus gestos exagerados e sempre a postos
Alguns parecem ser aquilo que nunca foram, de si mesmos, estão sempre a espera
Outros são faróis, referências que todos observam com fraterno gosto
E entre alguns e outros todos passam
Alguns percebidos, outros escondidos
Alguns esquecidos, outros enaltecidos
Seus rostos e suas vidas, entrelaces temporários, tramas de um visual tecido
Que pelo mundo enxergo, curioso e agradecido.