LADO RUIM

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Defendo a tese de que tudo tem seu lado ruim; tudo é relativo, nada é absoluto, como diria meu falecido e cremado Tio Demêncio Ventana. Hoje meu tio em pó, guardado num pote sobre a lareira, se meu primo cocalero não aspirou-o.

O Natal tem o seu lado ruim antes, durante e depois da cerimônia de entrega dos presentes.

As mulheres, dias antes, transformam-se em carpideiras natalinas reclamando do movimento, da vizinha que não quis assar o chester, da cunhada que parece Natal: só dá as caras uma vez por ano. E só pra comer, não ajuda em nada a bruaca!

E lá vamos nós com o carro entupido de pacotes, gente e o cachorro que não fica sozinho senão come o sofá e a poltrona da sala.

Vamos voltar pois esqueceram do Evaristo, meu sobrinho de quatro anos que conseguiu indulto do maternal pra passar o Natal com a família. Com tornozeleira.

O grande cenário nos fundos da casa da vovó está pronto. A horda de sobrinhos e crianças que brota não sei de onde fazem a terra tremer, parecem anões visigodos em fúria devastadora!

Aquele, brandindo um espeto com alguma coisa que lembra carvão, é o cunhado amado que repete sem parar: “Pede pra sair, pede pra sair!”, parece propaganda de laxante.
Eu poderia ter ficado em casa, lendo Gatos À Paisana, do Gladstone O. Mársico, que ganhei do Prévidi e me enchendo de mandiopan.

Mas impensável não ir no alegre convescote sem retaliações futuras; quem tem namorada, mulher ou qualquer coisa que tenha se adonado de tua alma nesses anos sabe disso!
Meia-noite todos se abraçam, trocam presentes e alguns empurrões e fico com o perfume da Tia Ventina – de nascença Joventina – Minúcias de Pavor, da Coty.

Já ganhei um par de meias, um xilofone e uma garrafa de Espuma de Prata paraguaia.
Tenho a impressão que as pessoa garimpam porcarias dentro de casa e empurram no Natal, para bobos que nem eu. Aí eu ganho e guardo pra dar no próximo Natal, é um maravilhoso ciclo!

Essa Espuma de Prata eu ganhei há dez anos do Precário, meu amigo secreto, que tratei de passar adiante e ela voltou, agora, para as minhas mãos, que lindo, amigos!

E a coisa ia indo assim, balanceei a situação, já quase sem munição fiquei como espectador até a hora de ir embora com mais pacotes e gente que não conheço que serão desovadas pelo caminho.

Viram como pode ter um lado espinhoso o Natal? Acostumem-se a procurar o lado ruim das coisas e tua vida ficará melhor.

Beijinhos e abracinhos, depois retorno. Não mexam em nada até eu voltar, certo?

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