A culpa também é nossa

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Assédio. Claro que a culpa não é da vítima, nunca. Mas temos culpa sim, todas nós. Nós mães, que educamos homens que assediam. Nós amigas, que ouvimos e rimos de comentários grosseiros sobre outras mulheres. Nós namoradas ou esposas, que escutamos caladas relatos sobre a intimidade das outras mulheres. Nós que somos chefes ou colegas de trabalho e não apoiamos, não denunciamos, não acolhemos outras mulheres que passam por situações constrangedoras ou mesmo violentas no ambiente profissional. Nós que não nos preocupamos com “as outras”.

Acompanhando as notícias e debates sobre assédio nesse mês em que tanto se fala sobre as mulheres, pensei em nós todas. Nós que somos a maioria da população brasileira. Mães ou professoras, também somos maioria como educadoras. Chefes de família em quase metade dos lares do país,somos referência para os nossos filhos e responsáveis pela formação das futuras gerações. Embora ainda sub-representadas na política e em alguns setores da sociedade, já temos cargos importantes nas empresas, estamos presentes no poder judiciário, na polícia, no ensino superior, na medicina, na construção civil. Nós estamos em todos os lugares, e em muitos deles temos poder para mudar a realidade, a nossa e a das outras.

Então, na próxima vez em que ouvirmos uma piada de mau gosto sobre mulheres, sobre qualquer mulher, não vamos rir. Na próxima vez em que uma colega contar que foi assediada,vamos afastar qualquer impulso de perguntar o que ela fez para provocar ou facilitar a situação, e vamos ouvir com respeito, e tentar ajudar. E se uma filha, amiga, irmã, nos falar sobre como se sentiu desconfortável em alguma situação, desrespeitada por ser mulher, em primeiro lugar vamos acreditar,e depois pensar juntas em uma solução. Relatos distorcidos ou mentirosos sempre existem, vindos de homens ou mulheres, mas não são a regra, são exceções. Vamos julgar menos, acolher mais, e assumir a nossa parte na responsabilidade pela construção de uma sociedade livre de assédio,mais segura e com respeito para todos os seres humanos, homens e mulheres.

Tatiana François Motta
Texto publicado na edição digital do jornal Zero Hora, em 05 de março de 2018.