Aquele Homem, meu Algoz.

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Existe um homem que, por muito tempo, me perseguiu. Sua sombra me assustava e me oprimia. Ele era sagaz em sua persistência, perspicaz em seu domínio e voraz em suas manipulações. Desde os primeiros momentos de lucidez sobre minha existência, quando primeiro percebi seus tentáculos furtivamente tentando imprimir suas crenças em minha alma, vivi sobre o jugo de seus impetuosos ataques e cerceadores condicionamentos. Esse homem-imagem que me foi imposto era, ou melhor ainda é, severo porque não consegue sorrir para as alegrias da vida. Inexpressivo porque acredita que emoções são muito afeminadas. Constipado porque sempre tem alguma dor trancada em seu falso intestino emocional. Robotizado porque limita seus movimentos para ser aceito em seu entorno. Autoritário porque acha que é o centro de seu efêmero, ignorante e patriarcal mini cosmos e egoísta porque acredita que o mundo deve girar em torno de sua lamacenta poça de soberba. Este homem foi o torturador de minha infância, o predador de minha adolescência e o verdugo de minha juventude. Sua cruel influência desmoronou minha visão de mundo, cerceou a manifestação de meus sensíveis talentos e destruiu o amor que gritava por exaltar-se do âmago de minha essência, pois ele dizia que sensibilidade é para as frágeis meninas, que talentos sutis não servem na vestimenta de um “macho” e que o amor é um antiquado sentimento a ser manifestado pelo outro sexo. A minha relação com este homem imagem de onde nasci foi sempre conflituosa, penosa e desastrosa. Hoje, muitos anos já se passaram, outros mundos já vivi, infindas outras terras já conheci e, principalmente, meu mundo interno naveguei com coragem, com determinação e com fé. Então, como resultado, aquela tenebrosa sombra de outrora hoje é somente uma memória de pesadelos que não mais assustam a alma, mas que servem de luminária para ver o quanto certos dogmas podem limitar, ou até matar, a essência de outro homem que, por benevolências divinas, possui sensíveis, humanos e nobres atributos. (Tadany – 25 03 16)

Cargnin dos Santos, Tadany. Aquele Homem, Meu Algoz.www.tadany.org®