Ano de dificuldades e desafios

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Pessoas conhecidas em São Borja, com reconhecida capacidade de trabalho na prestação de serviço para a agropecuária, estão indo embora. Vão tentar a sorte em estados, como no centro-oeste brasileiro. O principal motivo: no município, diminuem as chances de ocupação e de geração de renda. Este é apenas um dos indicadores de uma conjuntura socioeconômica de dificuldades, enfrentada por um município diretamente dependente do setor primário. E que enfrenta um ano de muitos desafios e dificuldades.

A lavoura de arroz, plantada em 44 mil hectares, é a que apresenta melhor desempenho e produtividade em relação aos últimos anos. São obtidos 8,5 mil quilos por hectare, em média, em 40% da área colhida, conforme o Irga. Mas a remuneração ao produtor é baixa. Em relação à produção resultante da principal variedade cultivada, a cotação é de somente R$ 33 a saca. Para as demais cultivares, o valor chega a R$ 38, enquanto no ano passado o patamar médio andou perto dos R$ 50.

Na soja, os 60 mil hectares de lavoura semeados foram castigados pela seca. A chuva de 80 a 100 milímetros, na semana passada, recuperou parcialmente as perdas, mas a Emater sinaliza quebra em 10% pelo menos. A produtividade deve alcançar 30, no máximo, 35 sacos por hectare. A colheita está começando.

O milho do tarde, da safrinha, é quase nada, devido ao La Niña. Produção de hortifrutigrangeiros, em quantidade e qualidade, só para quem tem irrigação, estufa, sombrite ou outras tecnologias. Para quem produz em condições adequadas, a chance de vender para a merenda escolar é alternativa de algum ganho. O desemprego no campo é crescente, mesmo na safra. Os empregadores estão descapitalizados e com medo, principalmente depois das novas regras impostas pela reforma trabalhista.

Um cenário como esse provoca também claros reflexos na cidade. Nos supermercados os preços sobem quase diariamente, mesmo que o governo federal sustente que não existe inflação. Com desvalorização em 20% no peso, os argentinos estão vindo em menor número e o comércio vende menos em março, segundo constata o presidente do Sindilojas, Ibrahim Mahmud. Essa queda no peso já afastou os veranistas argentinos no final da temporada.

Volta-se a falar em free shop, e São Borja é uma das cidades com essa perspectiva. Mas Mahmud ressalta ser pouco otimista, diante dos elevados valores exigidos como garantia aos investidores. “Na prática, o que vamos assistir são grandes empreendedores de fora montando lojas francas por aqui e outras cidades da fronteira”, projeta.

Para que tudo não pareça terra arrasada, há em marcha a provável implantação de outros investimentos na cidade. Na administração municipal e no empresariado local, é tida como certa a implantação, em etapas, da Plataforma Logística de apoio à Ponte da Integração. Dois grandes grupos empresariais já confirmam participação no futuro complexo de serviços. Dois outros empreendedores estudam instalar grandes hotéis em São Borja. Isso, mais que um alento, é a concreta perspectiva da geração e diversificação da economia, com mais empregos e mais rendas.